domingo, 23 de junho de 2013

A-(DES)-TRA-VA



A trava que travava a minha porta destravou
E a porta, silenciosa, livre do entrave, deslizou sorrateiramente
Serena, tranquila
Essa brisa que invade o que respirava sombria e friamente
Tira o fôlego
E aquece, e resfria
E amorna e amacia, alivia
Afasta o que não serve e o que não servia
E agracia

A trava que travava a minha porta só estava
Nem era esse entrave que entreva
É a treva que entreva e entrava
E faz parecer ser o que só estava
Mas a treva se dissipa, como tudo o que entrava
E o desentrave é inevitável
Porque toda porta tem uma trava
E toda trava destrava
Toda fechadura tem uma chave
E toda chave abre (alguma porta)
Todo céu tem uma ave
'Todo dia tem seu fim' [@ingriddlopes]
E todo fim tem seu dia
Até que um dia, não importa o que destrave, tudo acabe

(23 de junho de 2013)

Ideia sem assento


Com todos os pingos nos ís agudos sem assento
Com todas as vírgulas e reticências devidamente alocadas
Com todas as interrogações
Com todas as pausas
Todas as respirações
Todos os suspiros
Todos os silêncios fantasticamente compreendidos
E docemente respeitados
E graciosamente ditos e interpretados
Com todos os gestos de expressão plenamente revelada e velada
Com as surpresas disfarçadas e não escondidas
Com a dissimulação que enobrece o indissimulável
Com todas as ideias sem assento
Com todos os assentos vazios
Com todos os pingos nos Ís gigantes com acento

Com toda a brevidade
Com toda a demora
Com toda a intensidade
Com toda a hora que não cabe no relógio
Com todas as letras e sem elas todas
Com todos os tremores dos tempos incertos
Há um risco que delineia o imprevisto

Há um risco que aguda
Que acentua os pingos dos ís
E que estranha ou normalmente segue a isca
À(r)-risca o risco imprevisto

(23 de julho de 2013)


A tinta

Sujei as minhas mãos de tinta
Manchei as roupas
Meus dedos desenharam no papel e na tela
E coloriram, sujos de tinta, o monótono da minha visão

Fiquei em silêncio e contemplei
O quão bom é pintar, e sujar as mãos, e colorir o meu papel e a minha tela
Contemplei o quão bom pode ser o silêncio
E esse momento de súbita arte

Contemplei as mãos sujas
As roupas manchadas
O que os dedos desenharam no papel
O que ficou na tela

Suja de tinta, olhei em volta, e vi todas as cores em mim
E o monótono da visão que não era a minha

(23 de junho de 2013)


quinta-feira, 20 de junho de 2013

No outro dia

Cada dia tem o seu bocado
Cada dia tem o seu bom e o seu ruim
Cada dia é longo e é curto
Cada dia depende do dia
Do estado de humor
De quem te viu
De quem você viu
De quem não existe e ficou de chegar

Num dia você espera
No outro você sabe que nada virá
Num dia você chora
Noutro você procura as lágrimas e até elas já se foram
Num dia você está ali 
No outro você nem sabe quem é

Num dia, a dor te mata
Em outro dia, você revive e ela sabe que não é nada

Um dia você morre
No outro, só há o bocado de quem não te viu
De quem existe e não chegou
Do que veio tarde

(19 de junho de 2013)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Presença da falta



Presença constante da falta
Falta da presença
Estar não estando
Não estar estando
Ter, não tendo
Não tendo, ter
Doçura estar
Doçura querer estar
Doçura até não estar
Estar sem querer
Querer estar
Ficar tendo ido
Ir sem ficar
Ir e ficar
Ficando sempre
Indo sempre
Estando sempre
Ausência e presença
Uma coisa só

Saudade
Presença da falta
Falta do que merece ser
Presença mesmo ausente
Presente

(18 de junho de 2013)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A conta não bate



Pra não perder a chance,

Vou dizer que não preciso mais daquela saia rodada,
enfeitada de ilusões,
nem de colorir o que naturalmente não tem cor

Vou dizer que o peso da vida disse que ia embora,
e esqueceu de ir,
mas conseguiu deixá-la mais leve,
só porque reconheceu o que era.
E que a cor existe,
mas não é da cor que a gente viu da primeira vez que olhou

Vou dizer que o faz de conta da vida deixa a vida passar sem fazer a conta
E que a conta não bate

Vou dizer que a mistura do branco e do preto pode ter muitas cores felizes
E que não saber é saber

Vou dizer e dizer que vou ali, não sei bem aonde, só pra ver o que tem que ainda não tem.

(13/06/2013)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Liberdade




Enquanto o meu sonho depender de você e o seu sonho depender de mim, não estaremos livres nem do sonho, nem um do outro. Sonhos são para serem realizados e dar lugar a outros... e nós não precisamos nos livrar um do outro, precisamos dessa liberdade que nos une...

(5 de junho de 2013)

Reservas






E numa dessas reviravoltas que a vida dá,
Há o reencontro,
O encontro,
Um novo encontro...
Com o que há de bom cuja existência era ignorada, ou não percebida, ou, simplesmente, reservada.
Reservas do tempo,
Reservas dos dias bons,
Reservas boas dos dias bons.
Reservas da sensibilidade, da percepção velada, da observação discreta, do olhar profundo, das palavras trocadas.
Há um inusitado reencontro com o novo que assim se diz.
Há o novo inusitado.
E há uma verdade feliz que não sabe ainda o que é de verdade.
Há uma pureza encoberta e uma mesma pureza revelada, numa coisa só, de um jeito só, ou de todos possíveis.
Há um frio e um calor que se aquecem e afastam a mornidão indesejada.
Há o branco e o preto em seus devidos lugares.
E há, em tudo, um (re)encontro com o que nem estava perdido, nem estava achado. Simplesmente estava.
E aí reside o tempo, que se desloca para onde quer, trazendo o que vier, para quem quiser.

.5 de junho de 2013.