Você sempre fez as coisas ficarem mais leves, mais lindas, alegres, cheias de cor... Mas dessa vez não. Dessa vez você mesmo tornou tudo pesado demais. Tão pesado que me afundou. Arremessou sobre mim uma tonelada... Que me despedaçou... E agora, preciso carregar esse fardo, puxar essa montanha de coisas que eu não sabia que existia, que eu não pedi... e, ainda, acorrentada... Acorrentada a todas as possibilidades que não são mais, e às demais que não me alegram. Acorrentada a todos os sonhos que agora são vários pesadelos, me assombrando em todos os momentos dos meus dias. É um fardo que eu não pedi. Tanto de leveza que dei, que recebi, que fomos... E agora... Agora me restou esse fardo. Essa dor. Esse peso que me assombra e me inquieta e me derruba e me afoga e me destroi. Essa falta que consome. Essa vida sem cor. Esses passos que dou de forma obrigada, para onde não sei, para onde não pensei, não quis. Conduzida como que a um calvário. Um sacrifício que eu não ofereci. O fardo de que tudo que foi bom já não mais será, já não mais haverá. O fardo de cada momento alegre, de cada lembrança feliz, seguida do sorriso apagado e da tristeza profunda que corroi... porque não mais haverá... O fardo da dor, da solidão, da tristeza, da falta de perspectivas, da falta de liberdade... Porque agora, tenho que voar mesmo desejando com todas as forças ficar.... Porque agora... posso estar em qualquer lugar, menos onde o meu coração quer estar.
Ilma Cândido, 17.03.2021.